Cada vez nos dão menos ar para respirar, alimentam-nos com colheres que a cada refeição se tornam mais pequenas... No final, quando se fizerem as contas, irão perceber que nada ganharam com isso.
25 Dezembro 2006
02 Outubro 2006
Hoje acordei e percebi que alguém levou o meu Amor.
Já sei que dirão que fui eu que por desleixo o perdi, que o vendi nos saldos em troca de um punhado de kunami… Mas não, nem entrem por aí… Explico-vos que não, Digo-vos que não, Grito-vos que NÃO (!!!) … mas no fundo sei que só a Jazz acredita em mim.
O pior é saber que agora que o levaram ninguém me vai ajudar a encontrá-lo, ninguém me vai dizer onde ou quando o viu. Na verdade creio que por alguma razão que me escapa mesmo se soubessem não me iriam dizer que fugiu…
Hoje acordei e fiquei por minha conta… e ainda ontem Ele estava a dormir aqui.
Sinto-me roubado, desprezado, pisado, abandonado… sinto-me um chato, um emplastro, um cretino, um palhaço… de palavras caras, sisudo e acinzentado. Sinto-me lesado, humilhado, carente e enganado e sei que não vão aceitar a minha queixa na polícia, nem deixar colados os cartazes que nas ruas irei afixar… pedindo uma ajuda, uma resposta, uma pequena informação… e Eu que dava uma prenda a quem mo ajudasse a encontrar… Eu que parava o mundo para poder voltar a acordar do seu lado… de novo… com o Meu Amor.
Por norma as pessoas não sabem o quanto é importante cuidarem do seu Amor.
Invocam-no aos sete ventos por ignorância, comodismo, por desrespeito pelo português. Gastam-no, sujam-no, rebaixam-no, confundem-no com uma peganhenta camada de suor… julgam poder encontrá-lo muitas vezes… a toda a hora.
Falam de Amor como quem arrota de satisfação depois de um prato de fritos, cheios do colesterol que por castigo um dia lhes fará parar o coração… Corações que não batem, latejam... uma vida inteira… aprisionados em corpos estreitos que nunca os souberam respeitar.
Emocionam-se com os relatos de Amor verdadeiro, alheio, de quem o eternizou pelas suas letras, sons, cores, formas… plagiam-No em cartões de aniversário, mensagens de e-mail, SMS´s gratuitos como se imaginassem perceber a intensidade do que se estava a falar…
Acreditam que é do Amor que se Nasce, mas saberão que também dele se pode Morrer?!!
O Amor, a mim, fez-me sentir especial. Fez-me sorrir, rir e chorar… Fez-me acreditar que de nós algo maior do que o mundo iria Nascer. Fez-me acreditar que compensa ser Bom, que A virtude é saber esperar… muito mais do que isso: que a Sinceridade e a Verdade entre nós teriam espaço para viver e durar.
Fez-me crente no presente e esperançoso num Futuro… Nosso… diferente… Melhor.
Ensinou-me que tenho forças para conseguir voar, da forma que entender, até onde quiser… mas não sei se me terá ouvido quando lhe disse que sem ele, sem o meu Amor, nem sequer irei tentar. Voar…? Para onde… porquê?
Sozinho não vou! Sozinho fico (!!!) … nunca me falaste nessa história do "sozinho"... Não estou a entender… o que se passa, que justificação é esta… onde raio queres chegar?
Pela primeira vez me encontro sem qualquer esperança… e como é possível que me tenhas deixado assim?!!
Sinto que o Outono arranjará maneira de apagar, ou esconder, os recados que já hoje deixei nas paredes dessas ruas onde sei que irás passar.
O Meu Amor… O Meu Amor!!! Não é justo ficar sem Ele, depois de tudo o que Lhe dei… que lógica faz tudo isto, não quero… não posso ficar sem Ele… sempre tive tanto para Lhe dar!
Hoje acordei e percebi que alguém roubou o meu Amor… mas como é que Ele se deixou levar?
Quem disse que era para deixares de lutar?
Procuro, procuro… e continuarei a procurar.
Onde foi que te deixei, em que dia te perdi…
O Teu Amor
Já sei que dirão que fui eu que por desleixo o perdi, que o vendi nos saldos em troca de um punhado de kunami… Mas não, nem entrem por aí… Explico-vos que não, Digo-vos que não, Grito-vos que NÃO (!!!) … mas no fundo sei que só a Jazz acredita em mim.
O pior é saber que agora que o levaram ninguém me vai ajudar a encontrá-lo, ninguém me vai dizer onde ou quando o viu. Na verdade creio que por alguma razão que me escapa mesmo se soubessem não me iriam dizer que fugiu…
Hoje acordei e fiquei por minha conta… e ainda ontem Ele estava a dormir aqui.
Sinto-me roubado, desprezado, pisado, abandonado… sinto-me um chato, um emplastro, um cretino, um palhaço… de palavras caras, sisudo e acinzentado. Sinto-me lesado, humilhado, carente e enganado e sei que não vão aceitar a minha queixa na polícia, nem deixar colados os cartazes que nas ruas irei afixar… pedindo uma ajuda, uma resposta, uma pequena informação… e Eu que dava uma prenda a quem mo ajudasse a encontrar… Eu que parava o mundo para poder voltar a acordar do seu lado… de novo… com o Meu Amor.
Por norma as pessoas não sabem o quanto é importante cuidarem do seu Amor.
Invocam-no aos sete ventos por ignorância, comodismo, por desrespeito pelo português. Gastam-no, sujam-no, rebaixam-no, confundem-no com uma peganhenta camada de suor… julgam poder encontrá-lo muitas vezes… a toda a hora.
Falam de Amor como quem arrota de satisfação depois de um prato de fritos, cheios do colesterol que por castigo um dia lhes fará parar o coração… Corações que não batem, latejam... uma vida inteira… aprisionados em corpos estreitos que nunca os souberam respeitar.
Emocionam-se com os relatos de Amor verdadeiro, alheio, de quem o eternizou pelas suas letras, sons, cores, formas… plagiam-No em cartões de aniversário, mensagens de e-mail, SMS´s gratuitos como se imaginassem perceber a intensidade do que se estava a falar…
Acreditam que é do Amor que se Nasce, mas saberão que também dele se pode Morrer?!!
O Amor, a mim, fez-me sentir especial. Fez-me sorrir, rir e chorar… Fez-me acreditar que de nós algo maior do que o mundo iria Nascer. Fez-me acreditar que compensa ser Bom, que A virtude é saber esperar… muito mais do que isso: que a Sinceridade e a Verdade entre nós teriam espaço para viver e durar.
Fez-me crente no presente e esperançoso num Futuro… Nosso… diferente… Melhor.
Ensinou-me que tenho forças para conseguir voar, da forma que entender, até onde quiser… mas não sei se me terá ouvido quando lhe disse que sem ele, sem o meu Amor, nem sequer irei tentar. Voar…? Para onde… porquê?
Sozinho não vou! Sozinho fico (!!!) … nunca me falaste nessa história do "sozinho"... Não estou a entender… o que se passa, que justificação é esta… onde raio queres chegar?
Pela primeira vez me encontro sem qualquer esperança… e como é possível que me tenhas deixado assim?!!
Sinto que o Outono arranjará maneira de apagar, ou esconder, os recados que já hoje deixei nas paredes dessas ruas onde sei que irás passar.
O Meu Amor… O Meu Amor!!! Não é justo ficar sem Ele, depois de tudo o que Lhe dei… que lógica faz tudo isto, não quero… não posso ficar sem Ele… sempre tive tanto para Lhe dar!
Hoje acordei e percebi que alguém roubou o meu Amor… mas como é que Ele se deixou levar?
Quem disse que era para deixares de lutar?
Procuro, procuro… e continuarei a procurar.
Onde foi que te deixei, em que dia te perdi…
O Teu Amor
08 Maio 2004
Porque nem só nas letras se refugia uma alma...
Contraste - (download)
Contraste
A Lua infiltrada no teu quarto
diz-me que já adormeces sem pensar em mim,
que dormes embalada ao som de um disco que não ouvi,
diz que no chão uma vela liberta jasmim.
As Estrelas que te seguem lá do espaço
descrevem que uma paz profunda se instalou em ti,
confessam-te segura, serena e até feliz,
harmonia que insistes em usufruir.
E eu aqui tão acordado
a rever o filme que lançou a culpa que há em mim
na sombra do facto consumado
reside a causa do erro que cometi
quem não se entrega não merece ser feliz.
O Sol debruçado no telhado
conta-me que já te vê acordar a sorrir,
sorriso que chegaste a dizer depender de mim,
compromisso que a razão diz já não existir.
E eu aqui tão acordado
a rever o filme que lançou a culpa que há em mim
na sombra do facto consumado
reside a causa do erro que cometi
quem não se entrega não merece ser feliz.
Contraste
A Lua infiltrada no teu quarto
diz-me que já adormeces sem pensar em mim,
que dormes embalada ao som de um disco que não ouvi,
diz que no chão uma vela liberta jasmim.
As Estrelas que te seguem lá do espaço
descrevem que uma paz profunda se instalou em ti,
confessam-te segura, serena e até feliz,
harmonia que insistes em usufruir.
E eu aqui tão acordado
a rever o filme que lançou a culpa que há em mim
na sombra do facto consumado
reside a causa do erro que cometi
quem não se entrega não merece ser feliz.
O Sol debruçado no telhado
conta-me que já te vê acordar a sorrir,
sorriso que chegaste a dizer depender de mim,
compromisso que a razão diz já não existir.
E eu aqui tão acordado
a rever o filme que lançou a culpa que há em mim
na sombra do facto consumado
reside a causa do erro que cometi
quem não se entrega não merece ser feliz.
12 Abril 2004
O quanto vale uma vida
Conduziam-me os pensamentos quando uma luz, vinda do nada, me encandeou pelo retrovisor. A contracção da retina foi acompanhada por um desabafo genuíno e por isso irreproduzível, que, caso alguma dúvida existisse, assinalava que ficara, no mínimo, irritado.
A luz, que se viria a materializar na forma de dois “tuneiros” picados, consistia num misto de máximos, luzes de nevoeiro e neons azul cueca. Duas verdadeiras bestas preparavam-se para me largar à mercê de um turbilhão de ventos laterais e de guturais roncos sonoros, permitisse eu que a ultrapassagem se consumasse. Não creio que o termo “ultrapassagem” seja o que melhor define aquilo que senti estar prestes a acontecer.
Por convenção, a utilização deste termo implica o cumprimento de uma série de etapas de segurança com o único propósito de evitar que os acidentes aconteçam. Ultrapassar pressupõe a realização de uma manobra, intencional e ponderada, de transposição de um veículo face a outro, em condições normais de visibilidade alargada numa via de rodagem quando esta, tida no contexto de todos os factores externos que a condicionam, não oferece riscos evidentes à segurança dos que nela circulam. Sugere que uma luz de pisca se acende e que, em consequência, o iniciador da acção ocupa momentaneamente a faixa livre à sua esquerda contornando o veículo que segue em velocidade mais lenta.
Seguindo na segura faixa central, sentido norte-sul, da menos numerada auto-estrada do país, iria acabar por ser trespassado no cone de ar, na segurança, pior: na masculinidade, por um bando de anormais que sem nada de melhor para fazer desafiam a vida a mais de 200 km hora. Pudesse ter “replay” do momento e veria um clarão aproximar-se, dividir-se em dois, voltar a unir-se e desaparecer serpenteando na linha do horizonte. A parte final da descrição é pura suposição, visto que no momento exacto da ultrapassagem uma tela branca inundou-me o cérebro. Dei por mim agarrado ao volante como um timoneiro que, amarrado ao leme num súbito mar de tempestade, prende a respiração sabendo não ter outra opção que não seja esperar que tudo serene.
Quando o alcatrão voltou a emergir do caldo branco que me turvara a vista, senti o vibrar que indicava estar a galgar o traço que limita a berma. Após um firme ajuste de volante tudo se enquadrou com a normalidade.
A chuva caía agora com maior intensidade. Resolvi serenar os ânimos prosseguindo viagem através de vias com menor intensidade de tráfego. Deixei a auto-estrada na primeira saída e escolhi o caminho que me levaria até casa pela estrada que atravessa a serra. Esta opção, apesar do grande inconveniente chamado “mau piso”, deixar-me-ia protegido de um novo ataque criminoso. Era tudo o que pedia.
Não me conseguia abstrair da imoral ultrapassagem a que me vira sujeito. O facto, em si, era o menos. Preocupava-me, acima de tudo, a demonstração de total desrespeito pelo supremo valor da vida.
Sentia-me como personagem de uma história que se conta para ilustrar, de forma batida, a imoralidade que germina na nossa sociedade. O típico paradigma de um mundo em rota de colisão consigo mesmo: os putos da nação, sementes “esperança” do nosso imaginário colectivo, conduzem os “Leasings” dos papás – topos de gama na escala de afectos – para a sucata e os seus corpos para as urgências e morgues do país! Para além destes, e dos que se matam nas drogas, existem os outros: os que morrem para a vida afogando a sua criatividade, alegria, ousadia... num mar de gastos exemplos, modelos e teoremas que são convidados a apreender durante o processo de padronização a que são sujeitos.
Os outros, os que restam, vão-se matando um pouco mais a cada dia que passa, em conjunto, de forma ordeira e organizada.
Qual o meu papel no meio de tudo isto?
Chuva, muita chuva, pára-brisas embaciado, música na rádio que já nem ouvia, pouco metros de alcatrão visíveis na minha frente, estrada estreita, descida íngreme, curvas, precipício à esquerda, rocha à direita... e eu perdido na serra sem conseguir encontrar o papel que represento no meio de tudo isto.
Procurei o maço de tabaco no porta-luvas sem tirar os olhos da estrada. No momento em que o agarrava de forma decidida, um forte embate fez estremecer o carro. O pé pressionou a fundo o travão e instintivamente tentei controlar o carro que, como um cavalo por domar, fugia de traseira em direcção ao abismo. Já rendido à evidência de uma queda fatal, protegi a face com os braços e num milésimo de consciência ofereci a minha crença e devoção em troca de uma intervenção divina.
Miraculosamente o carro imobilizou-se.
Os faróis iluminavam furiosos riscos de chuva. O limpa pára-brisas dizia que não. Abri a porta e tentei sair. Libertei o cinto de segurança e saí. Dois segundos de desnorte e já me encontrava completamente ensopado. Verifiquei a frente do carro e constatei que o pára-choques se encontrava semipartido e o capô ligeiramente amassado. Não me apercebera até então, mas tinha o pára-brisas estalado.
Levantei a cabeça e tentei localizar na escuridão o veículo em que batera. “Como é possível estes gajos andarem sem luzes?”. Para além da chuva, nada.
Um enorme clarão iluminou, por momentos, tudo à minha volta. O céu, a serra, o alcatrão, todos disseram “presente”. Nem sinal de um segundo veículo. Comecei a acreditar na possibilidade de um despiste serra abaixo. Meu Deus, estarão mortos? O rugido do trovão acrescentou um toque de dramatismo ao ambiente que anunciava tragédia. Enquanto subia uns metros pela berma, confirmando o negro à minha volta, dei por mim a censurar a permanente invocação a um Deus em que não acredito. O carro parou porque tinha de parar e mais nada.
Poucos indícios me permitiam tentar perceber o que lhes acontecera. Fugiram, pensei... Talvez não tivessem seguro, os anormais.
O “eles” passava-me despercebido, talvez porque sempre acreditara na desgraça como plural.
Preparava-me para retornar ao carro quando tropecei em algo que me fez cair. Na terra enlameada da estreita berma em que mergulhara emergia um vulto imóvel. Durante breves segundos não me consegui mexer. Antes que pudesse retomar a respiração, um segundo relâmpago tratou de dar forma às minhas dúvidas. No chão, junto a mim, um corpo... o corpo do que me parecia ser uma mulher. O momento de luz que se preparava para ficar registado no meu cérebro até ao resto da vida iluminou, a não mais de meio metro mim, um rosto. Um rosto que me fitava de olhos bem abertos.
Uns olhos enormes que em não mais de um segundo de focalização me roubaram anos de vida. Vida que parecia tê-la já abandonado. Apercebi-lhe o crânio envolto numa enorme poça de sangue e que nada mais havia a fazer por ela. Não lhe toquei, não iria ser capaz de o fazer. Ela tinha que ser levada imediatamente para um Hospital. Tinha que o fazer. Não a podia deixar morrer na berma da estrada. Mesmo que já esteja morta... é imperativo fazer qualquer coisa. Qualquer pessoa, digna desta condição, é educada para responder positivamente a este tipo de situações... que se espera nunca aconteçam. Mas aconteceu... a mim. De qualquer forma, não posso estragar a minha vida por causa de um rasgo de dignidade para com um cadáver. Não a posso estragar ainda mais. Não posso ter mais respeito por uma carcaça sem vida do que por mim... que na realidade nunca respeitei. Ainda pensei em ligar anonimamente para o serviço de emergência médica, mas logo me consciencializei de que facilmente detectariam o meu telemóvel. Ainda hesitante relativamente ao que fazer, levantei-me e corri para o carro que ficara parado algumas dezenas de metros abaixo. Nesse momento, as lágrimas escorriam-me convulsivamente pelo rosto. O corpo haveria de ser descoberto, outro carro passaria com alguém disposto a repor alguma dignidade à morte daquela miserável, cujo azar foi ter-se cruzado comigo. A minha dignidade não me assusta, essa já foi há muito perdida. Nesse momento, ao entrar para o carro, senti-me tomado por uma força que desconhecia em mim. Voltei-me para trás, levantei por breve instante a cabeça em direcção aos céus negros de onde jorravam, em cascata, as lágrimas que os meus antepassados choravam por mim, e corri até ao local onde sabia estar o corpo. Lá chegado, deixei-me cair de joelhos na lama e coloquei os meus braços de forma a conseguir içá-lo contra o meu peito. Não devia chegar a pesar 50 quilos, pelo que se tornou relativamente fácil levantá-lo. Assim que me coloquei de pé, com o corpo seguro no meu colo, um terceiro relâmpago iluminou os céus. O terceiro e o mais forte. Estou certo de que foi enviado única e exclusivamente para dar intensidade dramática ao momento... o instante em que lancei o corpo pelo precipício... serra abaixo.
Entrei no carro, chuva, muita chuva, rádio ligado, cigarro, curvas, pouca visibilidade, mais estradas, cigarro, estacionamento.
Chegado a casa, enfiei-me no chuveiro. Guardei a roupa ensanguentada num saco e fui-me deitar. A pior parte do pesadelo sabia estar ainda por começar. Muitas dúvidas, ainda em preparação, iriam assolar-me a alma. A adrenalina ainda me fazia tremer. A brutalidade que cometera não parecia real. Não é verdade que a tivesse ouvido falar-me quando a encontrei deitada no chão... muito menos que a tenha sentido respirar... nem mesmo que me tenha tentado segurar o braço aquando do arremesso final... não é verdade!!!
"Sossega", disse de mim para mim.
Recordo-me de fechar os olhos e de prometer ficar coberto pelos lençóis até que a polícia me viesse buscar. No último instante de consciência aproveitei para deixar um recado: "Tu, sim tu... se me queres provar que existes certifica-te que não volto a acordar."
Conduziam-me os pensamentos quando uma luz, vinda do nada, me encandeou pelo retrovisor. A contracção da retina foi acompanhada por um desabafo genuíno e por isso irreproduzível, que, caso alguma dúvida existisse, assinalava que ficara, no mínimo, irritado.
A luz, que se viria a materializar na forma de dois “tuneiros” picados, consistia num misto de máximos, luzes de nevoeiro e neons azul cueca. Duas verdadeiras bestas preparavam-se para me largar à mercê de um turbilhão de ventos laterais e de guturais roncos sonoros, permitisse eu que a ultrapassagem se consumasse. Não creio que o termo “ultrapassagem” seja o que melhor define aquilo que senti estar prestes a acontecer.
Por convenção, a utilização deste termo implica o cumprimento de uma série de etapas de segurança com o único propósito de evitar que os acidentes aconteçam. Ultrapassar pressupõe a realização de uma manobra, intencional e ponderada, de transposição de um veículo face a outro, em condições normais de visibilidade alargada numa via de rodagem quando esta, tida no contexto de todos os factores externos que a condicionam, não oferece riscos evidentes à segurança dos que nela circulam. Sugere que uma luz de pisca se acende e que, em consequência, o iniciador da acção ocupa momentaneamente a faixa livre à sua esquerda contornando o veículo que segue em velocidade mais lenta.
Seguindo na segura faixa central, sentido norte-sul, da menos numerada auto-estrada do país, iria acabar por ser trespassado no cone de ar, na segurança, pior: na masculinidade, por um bando de anormais que sem nada de melhor para fazer desafiam a vida a mais de 200 km hora. Pudesse ter “replay” do momento e veria um clarão aproximar-se, dividir-se em dois, voltar a unir-se e desaparecer serpenteando na linha do horizonte. A parte final da descrição é pura suposição, visto que no momento exacto da ultrapassagem uma tela branca inundou-me o cérebro. Dei por mim agarrado ao volante como um timoneiro que, amarrado ao leme num súbito mar de tempestade, prende a respiração sabendo não ter outra opção que não seja esperar que tudo serene.
Quando o alcatrão voltou a emergir do caldo branco que me turvara a vista, senti o vibrar que indicava estar a galgar o traço que limita a berma. Após um firme ajuste de volante tudo se enquadrou com a normalidade.
A chuva caía agora com maior intensidade. Resolvi serenar os ânimos prosseguindo viagem através de vias com menor intensidade de tráfego. Deixei a auto-estrada na primeira saída e escolhi o caminho que me levaria até casa pela estrada que atravessa a serra. Esta opção, apesar do grande inconveniente chamado “mau piso”, deixar-me-ia protegido de um novo ataque criminoso. Era tudo o que pedia.
Não me conseguia abstrair da imoral ultrapassagem a que me vira sujeito. O facto, em si, era o menos. Preocupava-me, acima de tudo, a demonstração de total desrespeito pelo supremo valor da vida.
Sentia-me como personagem de uma história que se conta para ilustrar, de forma batida, a imoralidade que germina na nossa sociedade. O típico paradigma de um mundo em rota de colisão consigo mesmo: os putos da nação, sementes “esperança” do nosso imaginário colectivo, conduzem os “Leasings” dos papás – topos de gama na escala de afectos – para a sucata e os seus corpos para as urgências e morgues do país! Para além destes, e dos que se matam nas drogas, existem os outros: os que morrem para a vida afogando a sua criatividade, alegria, ousadia... num mar de gastos exemplos, modelos e teoremas que são convidados a apreender durante o processo de padronização a que são sujeitos.
Os outros, os que restam, vão-se matando um pouco mais a cada dia que passa, em conjunto, de forma ordeira e organizada.
Qual o meu papel no meio de tudo isto?
Chuva, muita chuva, pára-brisas embaciado, música na rádio que já nem ouvia, pouco metros de alcatrão visíveis na minha frente, estrada estreita, descida íngreme, curvas, precipício à esquerda, rocha à direita... e eu perdido na serra sem conseguir encontrar o papel que represento no meio de tudo isto.
Procurei o maço de tabaco no porta-luvas sem tirar os olhos da estrada. No momento em que o agarrava de forma decidida, um forte embate fez estremecer o carro. O pé pressionou a fundo o travão e instintivamente tentei controlar o carro que, como um cavalo por domar, fugia de traseira em direcção ao abismo. Já rendido à evidência de uma queda fatal, protegi a face com os braços e num milésimo de consciência ofereci a minha crença e devoção em troca de uma intervenção divina.
Miraculosamente o carro imobilizou-se.
Os faróis iluminavam furiosos riscos de chuva. O limpa pára-brisas dizia que não. Abri a porta e tentei sair. Libertei o cinto de segurança e saí. Dois segundos de desnorte e já me encontrava completamente ensopado. Verifiquei a frente do carro e constatei que o pára-choques se encontrava semipartido e o capô ligeiramente amassado. Não me apercebera até então, mas tinha o pára-brisas estalado.
Levantei a cabeça e tentei localizar na escuridão o veículo em que batera. “Como é possível estes gajos andarem sem luzes?”. Para além da chuva, nada.
Um enorme clarão iluminou, por momentos, tudo à minha volta. O céu, a serra, o alcatrão, todos disseram “presente”. Nem sinal de um segundo veículo. Comecei a acreditar na possibilidade de um despiste serra abaixo. Meu Deus, estarão mortos? O rugido do trovão acrescentou um toque de dramatismo ao ambiente que anunciava tragédia. Enquanto subia uns metros pela berma, confirmando o negro à minha volta, dei por mim a censurar a permanente invocação a um Deus em que não acredito. O carro parou porque tinha de parar e mais nada.
Poucos indícios me permitiam tentar perceber o que lhes acontecera. Fugiram, pensei... Talvez não tivessem seguro, os anormais.
O “eles” passava-me despercebido, talvez porque sempre acreditara na desgraça como plural.
Preparava-me para retornar ao carro quando tropecei em algo que me fez cair. Na terra enlameada da estreita berma em que mergulhara emergia um vulto imóvel. Durante breves segundos não me consegui mexer. Antes que pudesse retomar a respiração, um segundo relâmpago tratou de dar forma às minhas dúvidas. No chão, junto a mim, um corpo... o corpo do que me parecia ser uma mulher. O momento de luz que se preparava para ficar registado no meu cérebro até ao resto da vida iluminou, a não mais de meio metro mim, um rosto. Um rosto que me fitava de olhos bem abertos.
Uns olhos enormes que em não mais de um segundo de focalização me roubaram anos de vida. Vida que parecia tê-la já abandonado. Apercebi-lhe o crânio envolto numa enorme poça de sangue e que nada mais havia a fazer por ela. Não lhe toquei, não iria ser capaz de o fazer. Ela tinha que ser levada imediatamente para um Hospital. Tinha que o fazer. Não a podia deixar morrer na berma da estrada. Mesmo que já esteja morta... é imperativo fazer qualquer coisa. Qualquer pessoa, digna desta condição, é educada para responder positivamente a este tipo de situações... que se espera nunca aconteçam. Mas aconteceu... a mim. De qualquer forma, não posso estragar a minha vida por causa de um rasgo de dignidade para com um cadáver. Não a posso estragar ainda mais. Não posso ter mais respeito por uma carcaça sem vida do que por mim... que na realidade nunca respeitei. Ainda pensei em ligar anonimamente para o serviço de emergência médica, mas logo me consciencializei de que facilmente detectariam o meu telemóvel. Ainda hesitante relativamente ao que fazer, levantei-me e corri para o carro que ficara parado algumas dezenas de metros abaixo. Nesse momento, as lágrimas escorriam-me convulsivamente pelo rosto. O corpo haveria de ser descoberto, outro carro passaria com alguém disposto a repor alguma dignidade à morte daquela miserável, cujo azar foi ter-se cruzado comigo. A minha dignidade não me assusta, essa já foi há muito perdida. Nesse momento, ao entrar para o carro, senti-me tomado por uma força que desconhecia em mim. Voltei-me para trás, levantei por breve instante a cabeça em direcção aos céus negros de onde jorravam, em cascata, as lágrimas que os meus antepassados choravam por mim, e corri até ao local onde sabia estar o corpo. Lá chegado, deixei-me cair de joelhos na lama e coloquei os meus braços de forma a conseguir içá-lo contra o meu peito. Não devia chegar a pesar 50 quilos, pelo que se tornou relativamente fácil levantá-lo. Assim que me coloquei de pé, com o corpo seguro no meu colo, um terceiro relâmpago iluminou os céus. O terceiro e o mais forte. Estou certo de que foi enviado única e exclusivamente para dar intensidade dramática ao momento... o instante em que lancei o corpo pelo precipício... serra abaixo.
Entrei no carro, chuva, muita chuva, rádio ligado, cigarro, curvas, pouca visibilidade, mais estradas, cigarro, estacionamento.
Chegado a casa, enfiei-me no chuveiro. Guardei a roupa ensanguentada num saco e fui-me deitar. A pior parte do pesadelo sabia estar ainda por começar. Muitas dúvidas, ainda em preparação, iriam assolar-me a alma. A adrenalina ainda me fazia tremer. A brutalidade que cometera não parecia real. Não é verdade que a tivesse ouvido falar-me quando a encontrei deitada no chão... muito menos que a tenha sentido respirar... nem mesmo que me tenha tentado segurar o braço aquando do arremesso final... não é verdade!!!
"Sossega", disse de mim para mim.
Recordo-me de fechar os olhos e de prometer ficar coberto pelos lençóis até que a polícia me viesse buscar. No último instante de consciência aproveitei para deixar um recado: "Tu, sim tu... se me queres provar que existes certifica-te que não volto a acordar."
15 Março 2004
Cão vegetariano
Era uma vez um cão vadio de pêlo preto.
Desde que foi parido, sim, porque os cães rafeiros não nascem, sempre habitou as mesmas ruas, cinzentas e empoeiradas, da grande cidade.
Quando era mais pequeno, sim, porque os rafeiros nunca foram realmente cachorros, mamava da terceira teta da mãe... a terceira do lado esquerdo, a mais descaída para quem desce da cabeça em direcção ao rabo.
Depois de o camião ter passado, e coincidindo com o aparecimento dos primeiros dentes, passou a viver sob a protecção de uma velha. A velha chamava-lhe "Capitão", em homenagem a um antigo amante do tempo das ex-colónias, e com ela foi feliz. Manta, restos, pulgas catadas... Um dia, na praceta, após sentir um cheiro marado e sem que até hoje tenha percebido bem porquê, deu por si, sem controlo do seu corpo, às cavalitas de uma cadela loura... linda, inesquecível, por quem haveria de uivar na insónia de muitas noites de saudade.
Quando a carrinha preta partiu, passou a dormir onde calhava. Os tons da sua existência mudaram... ficaram da cor das ruas. Foram meses difíceis numa vida vazia de significado. Vivia em função de um único objectivo: aliviar a bexiga numa esquina de mármore, bem junto às caixas de legumes da mercearia do bairro. Bebia das sargentas, lambia quanto transpirasse humidade, os carros molhados pela maresia da manhã, os escarros junto à mesa das cartadas no jardim, o mijo largado pelos putos nas árvores... tudo! O cão vegetava como um cacto... poupava todo o líquido possível até chegar a altura de levantar a pata. Aí, nesse momento, desfazia-se de tudo o que com tanto sacrifício havia arrecadado. Eram jorros de urina que desciam pelo mármore, já muito amarelado, e passavam por entre as pedras da calçada, como um rio em fúria por desfiladeiros, que não poupa nada pelo caminho. Engolia em seco enquanto a sua pata, no ar, tremia. Apertava a bexiga, num último esforço de quem sabe, por experiência própria, que cada gota a mais libertada é fundamental para que o curso de urina atinja a estrada. Se mijar na esquina fosse disciplina olímpica, transpor o passeio e chegar ao alcatrão seriam os mínimos para a qualificação. Como nada na vida de um cão pode ser invejado, não vos surpreendo se disser que o estado de nirvana pós-mija era, quase sempre, interrompido por um biqueiro do merceeiro. Chuto após chuto o cu do cão estava cada vez mais inchado. Sem se preocupar com isso, o cão, todo o santo dia, lá ia molhar a sopa, diga-se, a esquina.
(...)
Se não gostam de legumes mijados, não abandonem os vossos animais.
Era uma vez um cão vadio de pêlo preto.
Desde que foi parido, sim, porque os cães rafeiros não nascem, sempre habitou as mesmas ruas, cinzentas e empoeiradas, da grande cidade.
Quando era mais pequeno, sim, porque os rafeiros nunca foram realmente cachorros, mamava da terceira teta da mãe... a terceira do lado esquerdo, a mais descaída para quem desce da cabeça em direcção ao rabo.
Depois de o camião ter passado, e coincidindo com o aparecimento dos primeiros dentes, passou a viver sob a protecção de uma velha. A velha chamava-lhe "Capitão", em homenagem a um antigo amante do tempo das ex-colónias, e com ela foi feliz. Manta, restos, pulgas catadas... Um dia, na praceta, após sentir um cheiro marado e sem que até hoje tenha percebido bem porquê, deu por si, sem controlo do seu corpo, às cavalitas de uma cadela loura... linda, inesquecível, por quem haveria de uivar na insónia de muitas noites de saudade.
Quando a carrinha preta partiu, passou a dormir onde calhava. Os tons da sua existência mudaram... ficaram da cor das ruas. Foram meses difíceis numa vida vazia de significado. Vivia em função de um único objectivo: aliviar a bexiga numa esquina de mármore, bem junto às caixas de legumes da mercearia do bairro. Bebia das sargentas, lambia quanto transpirasse humidade, os carros molhados pela maresia da manhã, os escarros junto à mesa das cartadas no jardim, o mijo largado pelos putos nas árvores... tudo! O cão vegetava como um cacto... poupava todo o líquido possível até chegar a altura de levantar a pata. Aí, nesse momento, desfazia-se de tudo o que com tanto sacrifício havia arrecadado. Eram jorros de urina que desciam pelo mármore, já muito amarelado, e passavam por entre as pedras da calçada, como um rio em fúria por desfiladeiros, que não poupa nada pelo caminho. Engolia em seco enquanto a sua pata, no ar, tremia. Apertava a bexiga, num último esforço de quem sabe, por experiência própria, que cada gota a mais libertada é fundamental para que o curso de urina atinja a estrada. Se mijar na esquina fosse disciplina olímpica, transpor o passeio e chegar ao alcatrão seriam os mínimos para a qualificação. Como nada na vida de um cão pode ser invejado, não vos surpreendo se disser que o estado de nirvana pós-mija era, quase sempre, interrompido por um biqueiro do merceeiro. Chuto após chuto o cu do cão estava cada vez mais inchado. Sem se preocupar com isso, o cão, todo o santo dia, lá ia molhar a sopa, diga-se, a esquina.
(...)
Se não gostam de legumes mijados, não abandonem os vossos animais.
11 Março 2004
É só mais um
Mais um dia que acaba. Mais um que se esfuma e apaga ao passar pelos meus dedos.
Invariavelmente, vasculho as cinzas da memória com os olhos postos no cinzeiro.
É nele que projecto os meus últimos minutos de cada dia. Sei que existem melhores telas na minha sala mas já concluí que no meu caso o tabaco, para além do óbvio vício de pulmão, é hábito de mão e fraqueza de olhar. Fumo porque, ao fim de todos estes anos, ainda preciso de uma desculpa para poder manter a cabeça baixa. Fumo de olhos postos nas cinzas de onde acredito ter nascido e para onde sei estar condenado a regressar. É nelas que me sinto protegido e aconchegado.
Hoje, como ontem, ou em qualquer outro dia antecedente que tenha resistido à erosão do esquecimento, nada de especial se impõe arquivar. Nem vou perder tempo a tentar descrever um amontoado de banalidades com as quais as vossas vidas estarão, certamente, carregadas. No meio de todas elas sobram as minhas rotinas, as que ainda não sucumbiram por vergonha aos pés de um qualquer anúncio de televisão.
Acordo às 7:00 da manhã, sete dias por semana. Aos Sábados, Domingos e em feriados nacionais, os únicos que são dados na empresa, acordo à mesma hora mas obrigo-me a permanecer na cama, durante mais duas, invariavelmente de olhos abertos. Aproveito o gesto de desligar o despertador para pegar no maço de tabaco da mesa-de-cabeceira e acender o primeiro cigarro. Visto o roupão, calço as pantufas e vou à cozinha acender o esquentador e ligar a máquina do café. Etapa seguinte: Casa de banho. Acendo a luz mas não entro. Volto à cozinha e dirijo-me à janela para confirmar se os meteorologistas acertaram na previsão. Dou comida ao gato, apago o cigarro, tomo banho, faço a barba, visto-me e tomo o pequeno-almoço ouvindo as notícias na rádio. Ouço sempre as notícias na rádio.
Uma destas noites, como a de hoje, de olhos postos no cinzeiro, decidi iniciar um processo de mudança radical na minha vida. Compreendi que a doutrina rígida que teorizava a minha existência estava a tornar-me escravo de mim mesmo. Impunha-se uma manifestação de poder voltada para dentro... um acto de irreverência irreflectida, um devaneio exibicionista determinado a mostrar que ainda sou eu quem segura as rédeas. Na manhã seguinte inundei o lavatório com sangue ao tentar fazer a barba antes do banho. Perdi o comboio de sempre e acabei por ter um dia em que me senti invulgarmente desequilibrado e desconfortável.
Compreendi que são pequenas as coisas que nos pertencem realmente. A casa que habito não é minha, o carro que não tinha já vendi... e nem os dentes que ajudam os lábios a segurar o filtro do cigarro são todos meus em resultado de uma noite de pancadaria há mais de 10 anos atrás. Puta de vida!
O clarão da chama que alimenta mais um cigarro incendiou o rastilho da minha alma com um súbito desejo de pintar. Este tipo de provocação, anarca, com o único propósito de desequilibrar o que já tenho de instável, cuja fonte subversiva ainda não me foi possível identificar, não era ocorrência virgem ou anormal. Anormal, diria, estúpido mesmo, é pensar em pintar todas as noites e já terem passado mais de 6 anos desde que sujei a última tela. A minha última obra é do século passado, pensei.
A pensar em tintas, e nas razões que inventara, de mim para mim, para me poder manter enfiado no sofá, adormeci. Iniciei uma viagem por páginas de jornais sujas e usadas, já gastas de tão sorvida ter sido a informação que traziam. Caras, muitas caras mascarradas com tinta preta, todas elas, e de olhares vidrados e perdidos no nada.
Vozes em coro nasciam do meu cérebro gritando “Repressão, repressão...”, ou talvez, sem que o conseguisse perceber com clareza, invocassem: “Depressão”, num compasso marcado pelo que reconheço ser o enorme relógio de ponto que me dá o primeiro “Bom Dia” de todas as manhãs. Os ecos eram já mais fortes do que as palavras pelo que a “...pressão,... pressão” me parecia cada vez mais forte e insuportável. Apercebo-me que os rostos estão agora virados para mim, no momento em que subitamente sinto o meu corpo ser arrancado do sofá. Uma luz intensamente púrpura irrompe do tecto e ilumina toda a sala. Sem que perceba porquê torno-me espectador de mim mesmo. Sentado a um canto observo o meu corpo ser suspenso por uma rede invisível, como que içado pelo tronco por uma força que consente que os membros e a cabeça se sintam abandonados. Assisto horrorizado ao triste espectáculo de me ver tomado por uma consciência, que não a minha, que me comanda a existência como uma mão que controla uma marioneta ou um fantoche. A luz inicialmente púrpura alterou a coloração do meu corpo que recebe agora, como uma tela de projecção imagens e texto a uma velocidade tal que me é impossível verificar exactamente do que tratam. A única luz presente é a que resulta da infestação a que me vejo sujeito, todo o resto da sala deixou de existir. O corpo em convulsão continua a processar a descarga e a perder a forma. Um cheiro nauseabundo invade os meus sentidos. De repente tudo parece serenar, menos o odor que é cada vez mais denso e irrespirável. Os rostos desapareceram. Constato que o corpo, em avançado estado de putrefacção se começa a decompor em partes. O que resta de um braço cai, enquanto que a parte inferior de uma das pernas se encontra apenas segura por cartilagens do joelho. A cabeça...
Acordo sobressaltado... sacudindo os dedos queimados pela ponta do cigarro.
Corro para a casa de banho e abro a torneira... deixo a água gelada de inverno escorrer-me sobre a mão.
Sinto o alívio...!
Dirijo-me para a cama onde permaneço bem acordado até o despertador dar a ordem para que me faça ao dia. Mais um... que não tem por que ser considerado novo.
Cigarro, roupão, pantufas, cozinha, esquentador, máquina do café, luz da casa de banho, cozinha, janela, comida ao gato, apagar cigarro, banho, barba, vestir, pequeno-almoço... ouvindo as notícias da rádio.
Encho um copo com água e dirijo-me ao armário da casa de banho.
Abro a gaveta de cima, como todos os dias, e retiro um da embalagem.
De volta à cozinha tomo o Prozac, arrumo o copo e faço-me à estrada que a vida não está para grandes merdas.
Mais um dia que acaba. Mais um que se esfuma e apaga ao passar pelos meus dedos.
Invariavelmente, vasculho as cinzas da memória com os olhos postos no cinzeiro.
É nele que projecto os meus últimos minutos de cada dia. Sei que existem melhores telas na minha sala mas já concluí que no meu caso o tabaco, para além do óbvio vício de pulmão, é hábito de mão e fraqueza de olhar. Fumo porque, ao fim de todos estes anos, ainda preciso de uma desculpa para poder manter a cabeça baixa. Fumo de olhos postos nas cinzas de onde acredito ter nascido e para onde sei estar condenado a regressar. É nelas que me sinto protegido e aconchegado.
Hoje, como ontem, ou em qualquer outro dia antecedente que tenha resistido à erosão do esquecimento, nada de especial se impõe arquivar. Nem vou perder tempo a tentar descrever um amontoado de banalidades com as quais as vossas vidas estarão, certamente, carregadas. No meio de todas elas sobram as minhas rotinas, as que ainda não sucumbiram por vergonha aos pés de um qualquer anúncio de televisão.
Acordo às 7:00 da manhã, sete dias por semana. Aos Sábados, Domingos e em feriados nacionais, os únicos que são dados na empresa, acordo à mesma hora mas obrigo-me a permanecer na cama, durante mais duas, invariavelmente de olhos abertos. Aproveito o gesto de desligar o despertador para pegar no maço de tabaco da mesa-de-cabeceira e acender o primeiro cigarro. Visto o roupão, calço as pantufas e vou à cozinha acender o esquentador e ligar a máquina do café. Etapa seguinte: Casa de banho. Acendo a luz mas não entro. Volto à cozinha e dirijo-me à janela para confirmar se os meteorologistas acertaram na previsão. Dou comida ao gato, apago o cigarro, tomo banho, faço a barba, visto-me e tomo o pequeno-almoço ouvindo as notícias na rádio. Ouço sempre as notícias na rádio.
Uma destas noites, como a de hoje, de olhos postos no cinzeiro, decidi iniciar um processo de mudança radical na minha vida. Compreendi que a doutrina rígida que teorizava a minha existência estava a tornar-me escravo de mim mesmo. Impunha-se uma manifestação de poder voltada para dentro... um acto de irreverência irreflectida, um devaneio exibicionista determinado a mostrar que ainda sou eu quem segura as rédeas. Na manhã seguinte inundei o lavatório com sangue ao tentar fazer a barba antes do banho. Perdi o comboio de sempre e acabei por ter um dia em que me senti invulgarmente desequilibrado e desconfortável.
Compreendi que são pequenas as coisas que nos pertencem realmente. A casa que habito não é minha, o carro que não tinha já vendi... e nem os dentes que ajudam os lábios a segurar o filtro do cigarro são todos meus em resultado de uma noite de pancadaria há mais de 10 anos atrás. Puta de vida!
O clarão da chama que alimenta mais um cigarro incendiou o rastilho da minha alma com um súbito desejo de pintar. Este tipo de provocação, anarca, com o único propósito de desequilibrar o que já tenho de instável, cuja fonte subversiva ainda não me foi possível identificar, não era ocorrência virgem ou anormal. Anormal, diria, estúpido mesmo, é pensar em pintar todas as noites e já terem passado mais de 6 anos desde que sujei a última tela. A minha última obra é do século passado, pensei.
A pensar em tintas, e nas razões que inventara, de mim para mim, para me poder manter enfiado no sofá, adormeci. Iniciei uma viagem por páginas de jornais sujas e usadas, já gastas de tão sorvida ter sido a informação que traziam. Caras, muitas caras mascarradas com tinta preta, todas elas, e de olhares vidrados e perdidos no nada.
Vozes em coro nasciam do meu cérebro gritando “Repressão, repressão...”, ou talvez, sem que o conseguisse perceber com clareza, invocassem: “Depressão”, num compasso marcado pelo que reconheço ser o enorme relógio de ponto que me dá o primeiro “Bom Dia” de todas as manhãs. Os ecos eram já mais fortes do que as palavras pelo que a “...pressão,... pressão” me parecia cada vez mais forte e insuportável. Apercebo-me que os rostos estão agora virados para mim, no momento em que subitamente sinto o meu corpo ser arrancado do sofá. Uma luz intensamente púrpura irrompe do tecto e ilumina toda a sala. Sem que perceba porquê torno-me espectador de mim mesmo. Sentado a um canto observo o meu corpo ser suspenso por uma rede invisível, como que içado pelo tronco por uma força que consente que os membros e a cabeça se sintam abandonados. Assisto horrorizado ao triste espectáculo de me ver tomado por uma consciência, que não a minha, que me comanda a existência como uma mão que controla uma marioneta ou um fantoche. A luz inicialmente púrpura alterou a coloração do meu corpo que recebe agora, como uma tela de projecção imagens e texto a uma velocidade tal que me é impossível verificar exactamente do que tratam. A única luz presente é a que resulta da infestação a que me vejo sujeito, todo o resto da sala deixou de existir. O corpo em convulsão continua a processar a descarga e a perder a forma. Um cheiro nauseabundo invade os meus sentidos. De repente tudo parece serenar, menos o odor que é cada vez mais denso e irrespirável. Os rostos desapareceram. Constato que o corpo, em avançado estado de putrefacção se começa a decompor em partes. O que resta de um braço cai, enquanto que a parte inferior de uma das pernas se encontra apenas segura por cartilagens do joelho. A cabeça...
Acordo sobressaltado... sacudindo os dedos queimados pela ponta do cigarro.
Corro para a casa de banho e abro a torneira... deixo a água gelada de inverno escorrer-me sobre a mão.
Sinto o alívio...!
Dirijo-me para a cama onde permaneço bem acordado até o despertador dar a ordem para que me faça ao dia. Mais um... que não tem por que ser considerado novo.
Cigarro, roupão, pantufas, cozinha, esquentador, máquina do café, luz da casa de banho, cozinha, janela, comida ao gato, apagar cigarro, banho, barba, vestir, pequeno-almoço... ouvindo as notícias da rádio.
Encho um copo com água e dirijo-me ao armário da casa de banho.
Abro a gaveta de cima, como todos os dias, e retiro um da embalagem.
De volta à cozinha tomo o Prozac, arrumo o copo e faço-me à estrada que a vida não está para grandes merdas.
09 Março 2004
O dia que poderia ter mudado o mundo
Portugal
11 de Setembro de 1989.
3:16 de uma manhã chuvosa.
EN13. Algures entre Viana do Castelo e Valença do Minho.
Um Scania R750 pára numa estação de serviço.
Da cabine com vidros fechados vinha um som abafado de alguém a cantarolar sobre a voz de Olivia Newton John "... Lets uéte musical... fisical...". A voz seca e descontrolada alternava, por vezes, com uma assobiadela melódica e trinada aperfeiçoada por alguns anos de treino diário.
O TIR imobilizou-se junto a uma das bombas de Diesel. Simultaneamente, a porta abriu. O primeiro contacto com o meio exterior foi estabelecido com um escarro, mistura em partes iguais de saliva, catarro, café e bagaço. Desde que mudara para este TIR, mais alto que o anterior, José da Silva Sousa Antunes Fialho retomara este vício de menino: Cuspir em arco e esperar de olhos semi-cerrados pelo "Splash" de volume líquido viscoso contra superfície dura, lisa e aderente.
José da Silva Sousa Antunes Fialho, como respondia sempre que lhe perguntavam o nome, transportava nesse dia uma carga de 37 toneladas de cartuchos de GELAMON.
Estes explosivos seriam entregues no Porto de Lisboa e embarcados num cargueiro Uruguaio, fretado pelo governo português, que a iria levar até Angola, onde seria utilizada em "obras de interesse público." Como não existiam "papéis" a acompanhar a mercadoria, nem se sabia ao certo quem era o cliente, aconselhava a prudência que se fizesse esta viagem durante a madrugada. Curiosamente, nessa mesma noite, a Brigada de Trânsito havia recebido ordens expressas para estar alerta, apenas, a veículos ligeiros de passageiros de cor castanha. Um veículo deste tipo poderia, presumivelmente, estar a ser utilizados pelos Irmãos Cavaco, novamente evadidos.
Na bomba ao lado da que estava ocupada pelo TIR de José da Silva Sousa Antunes Fialho, parara, entretanto, em sentido contrário, um veículo pesado com cisterna de transporte de líquidos de matrícula espanhola. Fazia uma viagem por território nacional e havia partido de Huelva com destino a La Coruña. Este veículo, pertença de uma companhia de lacticínios, fazia acompanhar-se por 3 outros veículos ligeiros que aguardavam na estrada pelo fim do processo de abastecimento. Contudo, hoje não era leite a matéria transportada. Dez mil litros de plutónio líquido passeavam pelas estradas portuguesas, enquanto 9 milhões de pessoas se preparavam para mais um dia nas suas vidas.
Enquanto os dois camiões abafavam a palhinha chegou à estação de serviço um FIAT 127 branco. No seu interior 4 indivíduos de características físicas muito semelhantes aparentavam estar muito nervosos. Estacionaram junto à bomba de mistura para motociclos e abandonaram o veículo. Aproveitando o movimento anormal para um posto de abastecimento de tão pequenas dimensões forçaram as portas da Renault 4 do gasolineiro e abandonaram o posto em grande velocidade. Vendo o seu veículo castanho em andamento, o pobre homem lançou-se numa corrida inútil atrás do carro entretanto desaparecido na escuridão da noite, deixando para trás, esquecida no solo, uma mangueira de combustível. O gasóleo jorrava furiosamente.
Na atrapalhação do momento, o cigarro que trazia no canto da boca caiu e, miraculosamente para todo o mundo moderno, aterrou dentro do escarro que José da Silva Sousa Antunes Fialho havia largado à chegada. A beata não resistiu mais de 3 décimas de segundo.
(...)
Todas as manhãs, quando acordo, agradeço à obra e graça do escarro que salvou as nossas vidas!
Portugal
11 de Setembro de 1989.
3:16 de uma manhã chuvosa.
EN13. Algures entre Viana do Castelo e Valença do Minho.
Um Scania R750 pára numa estação de serviço.
Da cabine com vidros fechados vinha um som abafado de alguém a cantarolar sobre a voz de Olivia Newton John "... Lets uéte musical... fisical...". A voz seca e descontrolada alternava, por vezes, com uma assobiadela melódica e trinada aperfeiçoada por alguns anos de treino diário.
O TIR imobilizou-se junto a uma das bombas de Diesel. Simultaneamente, a porta abriu. O primeiro contacto com o meio exterior foi estabelecido com um escarro, mistura em partes iguais de saliva, catarro, café e bagaço. Desde que mudara para este TIR, mais alto que o anterior, José da Silva Sousa Antunes Fialho retomara este vício de menino: Cuspir em arco e esperar de olhos semi-cerrados pelo "Splash" de volume líquido viscoso contra superfície dura, lisa e aderente.
José da Silva Sousa Antunes Fialho, como respondia sempre que lhe perguntavam o nome, transportava nesse dia uma carga de 37 toneladas de cartuchos de GELAMON.
Estes explosivos seriam entregues no Porto de Lisboa e embarcados num cargueiro Uruguaio, fretado pelo governo português, que a iria levar até Angola, onde seria utilizada em "obras de interesse público." Como não existiam "papéis" a acompanhar a mercadoria, nem se sabia ao certo quem era o cliente, aconselhava a prudência que se fizesse esta viagem durante a madrugada. Curiosamente, nessa mesma noite, a Brigada de Trânsito havia recebido ordens expressas para estar alerta, apenas, a veículos ligeiros de passageiros de cor castanha. Um veículo deste tipo poderia, presumivelmente, estar a ser utilizados pelos Irmãos Cavaco, novamente evadidos.
Na bomba ao lado da que estava ocupada pelo TIR de José da Silva Sousa Antunes Fialho, parara, entretanto, em sentido contrário, um veículo pesado com cisterna de transporte de líquidos de matrícula espanhola. Fazia uma viagem por território nacional e havia partido de Huelva com destino a La Coruña. Este veículo, pertença de uma companhia de lacticínios, fazia acompanhar-se por 3 outros veículos ligeiros que aguardavam na estrada pelo fim do processo de abastecimento. Contudo, hoje não era leite a matéria transportada. Dez mil litros de plutónio líquido passeavam pelas estradas portuguesas, enquanto 9 milhões de pessoas se preparavam para mais um dia nas suas vidas.
Enquanto os dois camiões abafavam a palhinha chegou à estação de serviço um FIAT 127 branco. No seu interior 4 indivíduos de características físicas muito semelhantes aparentavam estar muito nervosos. Estacionaram junto à bomba de mistura para motociclos e abandonaram o veículo. Aproveitando o movimento anormal para um posto de abastecimento de tão pequenas dimensões forçaram as portas da Renault 4 do gasolineiro e abandonaram o posto em grande velocidade. Vendo o seu veículo castanho em andamento, o pobre homem lançou-se numa corrida inútil atrás do carro entretanto desaparecido na escuridão da noite, deixando para trás, esquecida no solo, uma mangueira de combustível. O gasóleo jorrava furiosamente.
Na atrapalhação do momento, o cigarro que trazia no canto da boca caiu e, miraculosamente para todo o mundo moderno, aterrou dentro do escarro que José da Silva Sousa Antunes Fialho havia largado à chegada. A beata não resistiu mais de 3 décimas de segundo.
(...)
Todas as manhãs, quando acordo, agradeço à obra e graça do escarro que salvou as nossas vidas!
08 Março 2004
No outro lado do muro
Não creio que saibas quem sou...
Sou aquele tipo estranho com quem te cruzaste hoje no metro... O dono dos olhos de morte que te trespassaram a alma. Aquele que num breve relance de olhar violou o que de mais íntimo possuis... Ou serei o charmoso que almoçou sentado a teu lado?... Sim, eu! Sei que foi comigo que sonhaste na terça-feira... Sei o quanto me queres conhecer, como anseias pelo meu toque... como estremeces com o meu sorriso. É meu o rosto que os teus olhos vêem quando se fecham tomados impulsos de prazer.
Sou o teu vizinho do lado, o que passeia o cão fazendo jogging e que por timidez desvia o olhar quando tu passas... ou serei o vizinho de cima, aquele que nunca viste... Que nunca viste, mas que todos os dias ouves cantarolar no duche... e que por isso existe, para ti.
Sou o condutor, também parado na fila de trânsito, cujo carro nunca reconheces porque todos os dias muda de cor, em quem sempre reparas nunca sabendo bem porquê. Ora porque grito ao telemóvel, ora porque buzino sem razão aparente... aquele que às vezes te parece adormecido, ou o outro que todos os dias te olha de tanto te querer engatar.
Sou eu quem troca as tuas cartas do correio, quem assina o teu cheque de ordenado... sou o primeiro amor da tua vida, sou aquele que será um dia enterrado a teu lado...
Mas diz-me: E tu?... Quem és tu afinal??!
Sou aquele que um dia se apaixonou por ti, e que no fim nada ganhou com isso. Sou aquele que disseste não ser capaz de aguentar a pressão e que por isso ultrajaste em frente de toda a empresa. Sou aquele que odeia ter que olhar para ti e que mesmo assim todos os dias diz que te ama. Sou o porco da mesa ao lado que fuma enquanto almoças... sou o mendigo que na rua te estende aquela mão que te enoja. Sou o mudo actor de novela que só dobrado pela tua voz recebe ordem para falar. Sou aquele que te acha patética, mas que se deslumbra de cada vez que te vê passar.
Sou a face oculta no outro lado do espelho, a que conhece cada detalhe da tua aborrecida rotina de todas as manhãs.
Sou alegre, astuto, cínico, bondoso, de esquerda e de direita... sou eu quem todos os dias te blasfema, mas que sabe não ter forças para conseguir viver sem ti. Sou aquele que queria viver sozinho, longe deste teu mundo, deste antigo paraíso que tornaste em local demasiado hostil para se viver. Sou a luz que te guia e a multidão que te esconde. Sou tudo e não sou nada. Alimento-me do brilho dos teus dias, monopolizo-te, à noite, em solidão.
E tu?... Diz-me... quem és tu afinal??!
Eu sei quem sou, sou o outro... o que habita no outro lado do muro e que sobrevive condenado a levar para casa os resquícios da tua maldade, da tua falsidade, da tua hipocrisia.
Sou aquele te julga já conhecer, mas que todos os dias consegues surpreender ao levar ainda mais abaixo os limites. Sou quem assustas e interrogas, quem persegues e acorrentas. Sou o psicopata solitário, o pai de família bonacheirão, o electricista, o bancário e o executivo solteirão. Sou a tua gargalhada à mesa com os amigos, a anedota jocosa com propósito de achincalhar.
Sou eu quem passa férias a teu lado, apesar de ser de ti que quero descansar. Sou eu quem se arrasta para festas e bailes, e a quem pisas fingindo dançar.
Sou aquele que ainda hoje guarda as cartas que escreveste, o mesmo que jurou um dia haver de te matar.
Serei a tua réstia de esperança,
A sombra negra no teu último olhar,
Será minha a voz que ouvirás no escuro,
Vinda directamente do outro lado do muro,
E que no fim de tudo te irá perguntar:
“E tu... quem julgas tu que és afinal???”
Não creio que saibas quem sou...
Sou aquele tipo estranho com quem te cruzaste hoje no metro... O dono dos olhos de morte que te trespassaram a alma. Aquele que num breve relance de olhar violou o que de mais íntimo possuis... Ou serei o charmoso que almoçou sentado a teu lado?... Sim, eu! Sei que foi comigo que sonhaste na terça-feira... Sei o quanto me queres conhecer, como anseias pelo meu toque... como estremeces com o meu sorriso. É meu o rosto que os teus olhos vêem quando se fecham tomados impulsos de prazer.
Sou o teu vizinho do lado, o que passeia o cão fazendo jogging e que por timidez desvia o olhar quando tu passas... ou serei o vizinho de cima, aquele que nunca viste... Que nunca viste, mas que todos os dias ouves cantarolar no duche... e que por isso existe, para ti.
Sou o condutor, também parado na fila de trânsito, cujo carro nunca reconheces porque todos os dias muda de cor, em quem sempre reparas nunca sabendo bem porquê. Ora porque grito ao telemóvel, ora porque buzino sem razão aparente... aquele que às vezes te parece adormecido, ou o outro que todos os dias te olha de tanto te querer engatar.
Sou eu quem troca as tuas cartas do correio, quem assina o teu cheque de ordenado... sou o primeiro amor da tua vida, sou aquele que será um dia enterrado a teu lado...
Mas diz-me: E tu?... Quem és tu afinal??!
Sou aquele que um dia se apaixonou por ti, e que no fim nada ganhou com isso. Sou aquele que disseste não ser capaz de aguentar a pressão e que por isso ultrajaste em frente de toda a empresa. Sou aquele que odeia ter que olhar para ti e que mesmo assim todos os dias diz que te ama. Sou o porco da mesa ao lado que fuma enquanto almoças... sou o mendigo que na rua te estende aquela mão que te enoja. Sou o mudo actor de novela que só dobrado pela tua voz recebe ordem para falar. Sou aquele que te acha patética, mas que se deslumbra de cada vez que te vê passar.
Sou a face oculta no outro lado do espelho, a que conhece cada detalhe da tua aborrecida rotina de todas as manhãs.
Sou alegre, astuto, cínico, bondoso, de esquerda e de direita... sou eu quem todos os dias te blasfema, mas que sabe não ter forças para conseguir viver sem ti. Sou aquele que queria viver sozinho, longe deste teu mundo, deste antigo paraíso que tornaste em local demasiado hostil para se viver. Sou a luz que te guia e a multidão que te esconde. Sou tudo e não sou nada. Alimento-me do brilho dos teus dias, monopolizo-te, à noite, em solidão.
E tu?... Diz-me... quem és tu afinal??!
Eu sei quem sou, sou o outro... o que habita no outro lado do muro e que sobrevive condenado a levar para casa os resquícios da tua maldade, da tua falsidade, da tua hipocrisia.
Sou aquele te julga já conhecer, mas que todos os dias consegues surpreender ao levar ainda mais abaixo os limites. Sou quem assustas e interrogas, quem persegues e acorrentas. Sou o psicopata solitário, o pai de família bonacheirão, o electricista, o bancário e o executivo solteirão. Sou a tua gargalhada à mesa com os amigos, a anedota jocosa com propósito de achincalhar.
Sou eu quem passa férias a teu lado, apesar de ser de ti que quero descansar. Sou eu quem se arrasta para festas e bailes, e a quem pisas fingindo dançar.
Sou aquele que ainda hoje guarda as cartas que escreveste, o mesmo que jurou um dia haver de te matar.
Serei a tua réstia de esperança,
A sombra negra no teu último olhar,
Será minha a voz que ouvirás no escuro,
Vinda directamente do outro lado do muro,
E que no fim de tudo te irá perguntar:
“E tu... quem julgas tu que és afinal???”
07 Março 2004
Mergulho
Cruzámo-nos algumas vezes, por aí, nas arenas da vida e nunca me passaste despercebida.
Sempre senti que as probabilidades não estariam dispostas a jogar a meu favor.
Nem sempre o ambiente favoreceu as minhas habilidades naturais, nem sempre o espaço permitiu que estivéssemos sós, sem público... pequenos figurantes de um treino que ficara marcado para dois.
Acusaste-me de ser muito defensivo, de ser incapaz de arriscar num investimento que não desse garantias de ser seguro.
Afirmaste que a falta de confiança nunca me permitiu oferecer-te tudo aquilo que sempre soubeste ter para te dar.
Passaste a ser a minha obsessão, o meu alimento, um desafio diário à lógica de uma sanidade que queria manter racional, lúcida, sã... Mas não fui capaz. Apostei tudo o que tinha num caminho íngreme de desespero, sem muros de protecção, sabendo que o preço seria o abismo. Precipitei-me num jogo doentio, ofensivo a mim mesmo, de ataque continuado numa direcção onde sabia nada existir... onde sabia que já não estavas.
A loucura encontrou-me, perdido nos flancos do deserto em que se tornara a esperança de outros dias.
Estendeu-me a sua mão e com uma voz serena convidou-me a partir: " ... segue-me, quem luta por amor merece receber o dom divino."
Mergulhei no seu corpo, negro, com a certeza de que nem todas as constelações de estrelas, juntas, poderão algum dia devolver-me o calor do teu toque, o brilho dos teus olhos ou a luz do teu sorriso.
Cruzámo-nos algumas vezes, por aí, nas arenas da vida e nunca me passaste despercebida.
Sempre senti que as probabilidades não estariam dispostas a jogar a meu favor.
Nem sempre o ambiente favoreceu as minhas habilidades naturais, nem sempre o espaço permitiu que estivéssemos sós, sem público... pequenos figurantes de um treino que ficara marcado para dois.
Acusaste-me de ser muito defensivo, de ser incapaz de arriscar num investimento que não desse garantias de ser seguro.
Afirmaste que a falta de confiança nunca me permitiu oferecer-te tudo aquilo que sempre soubeste ter para te dar.
Passaste a ser a minha obsessão, o meu alimento, um desafio diário à lógica de uma sanidade que queria manter racional, lúcida, sã... Mas não fui capaz. Apostei tudo o que tinha num caminho íngreme de desespero, sem muros de protecção, sabendo que o preço seria o abismo. Precipitei-me num jogo doentio, ofensivo a mim mesmo, de ataque continuado numa direcção onde sabia nada existir... onde sabia que já não estavas.
A loucura encontrou-me, perdido nos flancos do deserto em que se tornara a esperança de outros dias.
Estendeu-me a sua mão e com uma voz serena convidou-me a partir: " ... segue-me, quem luta por amor merece receber o dom divino."
Mergulhei no seu corpo, negro, com a certeza de que nem todas as constelações de estrelas, juntas, poderão algum dia devolver-me o calor do teu toque, o brilho dos teus olhos ou a luz do teu sorriso.
04 Março 2004
Refeição
Desinteressadamente, enquanto levava o garfo à boca, repousei o olhar nas dezenas de pessoas que almoçavam, em pé, de costas voltadas para mim, junto ao balcão de serventia. Reconheci a bata azul, a mesma de todos os dias, do sujeito de barba amarela. Estranho, como é possível repararmos apenas ao “de leve” nas pessoas... do género: “vejo-te aqui todos os dias mas nunca olhei realmente para ti”. Pareceu-me essa, nesse momento, uma atitude que, apesar de totalmente irreflectida, era demonstrativa de alguma presunção.
À distância de um cotovelo da bata azul estava a permanente oxigenada, logo seguida pelo colete creme que se fazia acompanhar, como sempre, pelo jornal “a bola” dobrado em cima do balcão. Ali estavam eles, lado a lado, imóveis, ocupando o mínimo espaço possível, parecendo feras, tensas, que protegem com o corpo as carcaças de que se alimentam. Só lhes faltava rosnar.
Sentado à minha mesa continuava a observá-los enquanto desfrutava da refeição. Serenamente, como faço questão que seja o espírito de qualquer almoço, busquei na minha fraca memória a imagem de outros dias. Motivado pela cadência dos pensamentos, e pela clareza da fresca água que entretanto bebera, conclui que as posições que ocupavam ao balcão, em pé, de castigo, eram invariavelmente as mesmas. Contudo, nunca reparara em qualquer diálogo entre si.
O silêncio na minha mesa era acompanhado pelo ritmado tilintar das dezenas de talheres e pratos que se esgrimiam de razões neste pequeno restaurante do centro da cidade. Por momentos, perdido entre o fim da refeição e o estímulo para um cigarro, imaginei a potência de agudos que se obteria se fosse possível juntar todos estes sons simultâneos, de hora de almoço, de uma Lisboa inteira. Conversas sobrepostas, vozes de fundo, pedidos para as cozinhas, agradecimentos ao balcão, noticiários televisivos, rádios, talheres, pratos, alguns copos partidos... A minha atenção voltou ao ponto de partida. O homem da bata azul saía.
“Bem... não era capaz de almoçar todos os dias em pé! Ainda se fosse para comer qualquer coisa que não implique prato... como é que o pessoal consegue???”.
À minha frente, o meu companheiro de almoço é levado a abrir a boca, para falar, pela primeira vez desde que espetara a primeira garfada.
“Se calhar é porque é mais barato!!!”
De repente senti-me enlameado por toda a minha ingenuidade.
Comem de pé porque é mais barato... e eu aqui sentado, pensei... incomodado.
Qual será o meu papel num outro texto? Qual será o elemento que me simboliza? Terão reparado em mim... no fulano que ocupa a mesa junto à janela?
Como canta alguém cuja voz tanto me agrada: “O mundo está ao contrário e ninguém reparou.”
Desinteressadamente, enquanto levava o garfo à boca, repousei o olhar nas dezenas de pessoas que almoçavam, em pé, de costas voltadas para mim, junto ao balcão de serventia. Reconheci a bata azul, a mesma de todos os dias, do sujeito de barba amarela. Estranho, como é possível repararmos apenas ao “de leve” nas pessoas... do género: “vejo-te aqui todos os dias mas nunca olhei realmente para ti”. Pareceu-me essa, nesse momento, uma atitude que, apesar de totalmente irreflectida, era demonstrativa de alguma presunção.
À distância de um cotovelo da bata azul estava a permanente oxigenada, logo seguida pelo colete creme que se fazia acompanhar, como sempre, pelo jornal “a bola” dobrado em cima do balcão. Ali estavam eles, lado a lado, imóveis, ocupando o mínimo espaço possível, parecendo feras, tensas, que protegem com o corpo as carcaças de que se alimentam. Só lhes faltava rosnar.
Sentado à minha mesa continuava a observá-los enquanto desfrutava da refeição. Serenamente, como faço questão que seja o espírito de qualquer almoço, busquei na minha fraca memória a imagem de outros dias. Motivado pela cadência dos pensamentos, e pela clareza da fresca água que entretanto bebera, conclui que as posições que ocupavam ao balcão, em pé, de castigo, eram invariavelmente as mesmas. Contudo, nunca reparara em qualquer diálogo entre si.
O silêncio na minha mesa era acompanhado pelo ritmado tilintar das dezenas de talheres e pratos que se esgrimiam de razões neste pequeno restaurante do centro da cidade. Por momentos, perdido entre o fim da refeição e o estímulo para um cigarro, imaginei a potência de agudos que se obteria se fosse possível juntar todos estes sons simultâneos, de hora de almoço, de uma Lisboa inteira. Conversas sobrepostas, vozes de fundo, pedidos para as cozinhas, agradecimentos ao balcão, noticiários televisivos, rádios, talheres, pratos, alguns copos partidos... A minha atenção voltou ao ponto de partida. O homem da bata azul saía.
“Bem... não era capaz de almoçar todos os dias em pé! Ainda se fosse para comer qualquer coisa que não implique prato... como é que o pessoal consegue???”.
À minha frente, o meu companheiro de almoço é levado a abrir a boca, para falar, pela primeira vez desde que espetara a primeira garfada.
“Se calhar é porque é mais barato!!!”
De repente senti-me enlameado por toda a minha ingenuidade.
Comem de pé porque é mais barato... e eu aqui sentado, pensei... incomodado.
Qual será o meu papel num outro texto? Qual será o elemento que me simboliza? Terão reparado em mim... no fulano que ocupa a mesa junto à janela?
Como canta alguém cuja voz tanto me agrada: “O mundo está ao contrário e ninguém reparou.”
02 Março 2004
Dias de hoje
Os dias passam devagar, agora... longe de ti, de mim, e do rebuliço que marcou, um dia, as nossas vidas.
Bem sei que prometeram tonalidades diferentes, que não disseram vir trazer tanta chuva... mas que queres que te diga agora?! Senti que a empresa nos estava a asfixiar e que por isso era importante reagir. Ela foi longe demais, sem dúvida... e logo connosco que sempre apregoámos estar imunes a esse risco. Intrometeu-se nos nossos momentos, amordaçou a minha música e quase apagava em definitivo este sorriso de que tanto gostas.
Como me ensinaram os livros de Gestão “pior do que decidir mal, é não decidir nada”, tomei a medida que se impunha. E que raio... se aos 25 anos um Homem não tem já possibilidade de corrigir trajectórias para todo o resto do caminho... qual será então o sentido de tudo isto?!
Como sabes não fugi de nada, nem tão pouco hipotequei seja o que for nas nossas vidas. Voltei ao velho Casal do Meio, ao encontro dos meus avós, porque senti existirem ainda, presas a mim, algumas raízes por descobrir. Nos entretantos muita coisa mudou. Até aqui tudo foi mecânico, um desencadear sucessivo de passos e etapas que, ao momento, por fatalidade ou falta de personalidade, me parecem ter sido impostos.
Nunca, até hoje, lutei conscientemente por nada e sinto ser este um direito que não me pode ser sonegado. Quero ser racionalmente feliz, dono e senhor do meu destino.
Ser-me-ia impossível imaginar que a verdadeira linguagem do mundo se pudesse ter ficado por estas terras. Bem que a podia procurar... Aqui não existe hipocrisia nos campos de milho, nem stress acumulado nos ramos das oliveiras. Não me parece também que os rebanhos nas pastagens se importem de andar em “para-arranca”, nem vislumbro aparente maldade em nenhum destes moinhos de velas ao vento. À lareira, por incrível que pareça, conversamos.
Não se sente falta da televisão, nem de qualquer outro caminho fácil para entreter a alma. Não troco um seminário de formação motivacional, por 2 segundos de relaxamento e contemplação neste pinhal. Não quero distrair-me de mim, por pequeno momento que seja.
A bolsa está em queda, os juros não compensam, mas entretanto a vida continua a ser de todos o melhor título... e é nela que estou a investir.
Quero que saibas que voltei a compor, a chorar, e em alguns momentos consigo já sorrir. Decidi assumir o meu dom e farei girar o mundo as vezes que forem necessárias até poder viver da música. A cabana está a ficar lindíssima, bem junto ao grande lago de que tanto gostas. Quando passearmos é necessário que o façamos com algum cuidado para que não machuquemos as pequenas margaridas e os formosos malmequeres que cobrem estas paragens. Poupei madeira nos móveis e consegui fazer um belo berço de embalar. Sim, sei que não estavas à espera, também me parece ter chegado a altura ideal para termos a nossa primeira criança. As manhãs têm sido grandiosas... tenho visto borboletas lindas... os pardais abençoam o meu acordar...
...
Agora, que te falo, sinto-me forte. O pesadelo ficou no passado, e ao sonho resta todo o futuro.
Quero poder acordar e olhar para ti, da mesma forma que me vejo agora.
Os dias passam devagar, agora... longe de ti, de mim, e do rebuliço que marcou, um dia, as nossas vidas.
Bem sei que prometeram tonalidades diferentes, que não disseram vir trazer tanta chuva... mas que queres que te diga agora?! Senti que a empresa nos estava a asfixiar e que por isso era importante reagir. Ela foi longe demais, sem dúvida... e logo connosco que sempre apregoámos estar imunes a esse risco. Intrometeu-se nos nossos momentos, amordaçou a minha música e quase apagava em definitivo este sorriso de que tanto gostas.
Como me ensinaram os livros de Gestão “pior do que decidir mal, é não decidir nada”, tomei a medida que se impunha. E que raio... se aos 25 anos um Homem não tem já possibilidade de corrigir trajectórias para todo o resto do caminho... qual será então o sentido de tudo isto?!
Como sabes não fugi de nada, nem tão pouco hipotequei seja o que for nas nossas vidas. Voltei ao velho Casal do Meio, ao encontro dos meus avós, porque senti existirem ainda, presas a mim, algumas raízes por descobrir. Nos entretantos muita coisa mudou. Até aqui tudo foi mecânico, um desencadear sucessivo de passos e etapas que, ao momento, por fatalidade ou falta de personalidade, me parecem ter sido impostos.
Nunca, até hoje, lutei conscientemente por nada e sinto ser este um direito que não me pode ser sonegado. Quero ser racionalmente feliz, dono e senhor do meu destino.
Ser-me-ia impossível imaginar que a verdadeira linguagem do mundo se pudesse ter ficado por estas terras. Bem que a podia procurar... Aqui não existe hipocrisia nos campos de milho, nem stress acumulado nos ramos das oliveiras. Não me parece também que os rebanhos nas pastagens se importem de andar em “para-arranca”, nem vislumbro aparente maldade em nenhum destes moinhos de velas ao vento. À lareira, por incrível que pareça, conversamos.
Não se sente falta da televisão, nem de qualquer outro caminho fácil para entreter a alma. Não troco um seminário de formação motivacional, por 2 segundos de relaxamento e contemplação neste pinhal. Não quero distrair-me de mim, por pequeno momento que seja.
A bolsa está em queda, os juros não compensam, mas entretanto a vida continua a ser de todos o melhor título... e é nela que estou a investir.
Quero que saibas que voltei a compor, a chorar, e em alguns momentos consigo já sorrir. Decidi assumir o meu dom e farei girar o mundo as vezes que forem necessárias até poder viver da música. A cabana está a ficar lindíssima, bem junto ao grande lago de que tanto gostas. Quando passearmos é necessário que o façamos com algum cuidado para que não machuquemos as pequenas margaridas e os formosos malmequeres que cobrem estas paragens. Poupei madeira nos móveis e consegui fazer um belo berço de embalar. Sim, sei que não estavas à espera, também me parece ter chegado a altura ideal para termos a nossa primeira criança. As manhãs têm sido grandiosas... tenho visto borboletas lindas... os pardais abençoam o meu acordar...
...
Agora, que te falo, sinto-me forte. O pesadelo ficou no passado, e ao sonho resta todo o futuro.
Quero poder acordar e olhar para ti, da mesma forma que me vejo agora.
